terça-feira, 24 de outubro de 2017

Dieta gordurosa do pai contribuiria para câncer de mama na filha


 

Um estudo brasileiro premiado sugere que a ingestão excessiva de gordura pelo homem favorece o surgimento de tumores na próxima geração

Você já deve ter lido por aí como hábitos da mãe (fumar, beber, comer mal…) interferem na saúde do feto, tornando-o mais suscetível a doenças ao longo da infância e vida adulta. Mas pouco se falava sobre o pai. Bem, isso começou a mudar. Um estudo conduzido na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo abriu os olhos de pesquisadores do mundo todo para a influência da alimentação paterna no bem-estar de seus herdeiros – especialmente quando o assunto é câncer.
O trabalho é assinado pela bióloga Camile Castilho Fontelles, que atualmente faz pós-doutorado na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Primeiro, ela separou ratos machos em três grupos. Para um, ofertou uma dieta turbinada com banha de porco, representando a gordura saturada, vista como mais traiçoeira para a saúde. A segunda turma recebeu uma alimentação com doses extras de óleo de milho, fonte de gorduras poli-insaturadas – essas são encaradas como benéficas. O terceiro grupo, o controle, ficou na dieta básica, contendo todos os nutrientes essenciais para o crescimento adequado dos bichos.
Os animais foram cruzados com fêmeas alimentadas de forma padrão. A prole resultante desse cruzamento também comeu o necessário para se desenvolver de maneira saudável. “A ideia era realmente isolar a dieta do pai”, explica Camile. Com 50 dias, induziu-se o câncer de mama na prole feminina.
Inicialmente, a pesquisadora esperava que as duas dietas com alto teor de gorduras aumentassem o risco de o tumor se desenvolver. Mas isso aconteceu só nas filhotes dos machos que receberam a gordura de origem animal – ou seja, a saturada da banha de porco. “Já na prole dos que ingeriram a gordura vegetal, vinda do óleo de milho, notamos menor número de tumores e taxa de crescimento mais lenta. Isso sugere um efeito protetor”, relata Camile.

Por que a saturada foi pior

De acordo com a autora da experiência, os pais que abusaram dessa versão de gordura apresentaram mais adiposidade principalmente na área do testículo e do epidídimo, tubo no qual o esperma é armazenado. “E isso interfere na qualidade dos espermatozoides”, descreve Camile. Essa é uma das hipóteses consideradas capazes de explicar por que a prole desses animais acabou prejudicada.
Para o professor Thomas Ong, do Centro de Pesquisa em Alimentos (FoRC – Food Research Center), orientador do projeto, não significa que, a partir de agora, todos devem se entupir de óleo de milho. “Ele pode exercer outras alterações metabólicas. O que aprendemos é que não podemos classificar todas as gorduras da mesma maneira”, reflete. “Esperamos que os estudos avancem até o ponto em que a gente entenda qual a combinação ideal dessas substâncias para favorecer a saúde de pais e filhos”, comenta.


Fonte: (Saúde Abril)
Texto: Marcos Sena

 

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